segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Duas Vidas - Capítulo 1

Capítulo 1

Era uma manhã de inverno em Boston, nevando como há mais de 10 anos não nevava em toda região. 

Lana já estava atrasada para seu compromisso e tentou apressar o passo assim que saiu do prédio onde morava, mas percebeu que seria arriscado pois poderia cair e machucar-se, preferiu ser cautelosa e andou vagarosamente.

Passou rapidamente pelo Café próximo ao prédio onde morava, comprou um copo de café descafeinado e seguiu com passos rápidos porém cautelosos até a estação de metrô. Normalmente ela ia a pé até o prédio onde trabalhava como professora substituta de Literatura Inglesa da Universidade de Boston. Mas estava nevando forte e além disto ela havia se atrasado pois o boiler do chuveiro mais uma vez havia demorado a esquentar a água de seu banho.

Desceu as escadas com cautela, e dirigiu-se até a bilheteria para comprar seu ticket e lá ficou aguardando na fila, atrás de algumas pessoas. Ela estava preocupada com o aula que daria naquele dia, substituindo o professor que havia viajado em conferência para a costa Oeste. Ela havia sido contratada há pouco tempo como professora substituta, e antes, trabalhava apenas na sua tese de mestrado em literatura inglesa contemporânea e os fenômenos editoriais em tempos de globalização, na mesma universidade onde agora lecionava. Gostava do seu ofício e pretendia um dia ser a professora oficial da cadeira e terminar seu doutorado.

Enquanto divagava sobre o tema da aula que daria, cujo conteúdo fora solicitado pelo do professor que ela iria substituir, o primeiro homem da fila onde ela estava aguardando para comprar os tickets tentava comprar seu bilhete, mas parecia um pouco perdido. Era um homem alto, cabelos claros, lisos, a pele bronzeada, e carregava um forte sotaque latino enquanto comunicava-se em inglês com o atendente:

__ Preciso comprar um ticket para ir e voltar, mas não estou com notas americanas. Acabei de perder minha carteira e só tenho no bolso notas de real que estavam dentro do meu passaporte na mala no hotel. É dinheiro do Brasil. Você poderia aceita-las?

__ Desculpe senhor, não fazemos câmbio. Próximo por favor.

__ Sim, eu sei, mas não estou pedindo que faça câmbio, apenas que aceite em troca dos tickets. Eu não tenho como aguardar as casas de câmbio abrirem, e já estou atrasado para um compromisso. Por favor, poderia me ajudar? – disse sendo interrompido pelo próximo passageiro que comprava e rapidamente saia com o ticket.

__Senhor, não posso ajuda-lo, infelizmente não tenho como vender um ticket se não for em moeda local. Próximo por favor.

E rapidamente atendeu mais duas pessoas e finalmente chegou a vez de Lana. Ao invés de ser atendida, ela aguardou que o homem novamente falar com o atendente. Ela ainda não havia compreendido o que se passava e achou melhor deixa-lo falar e assim talvez o ajudar. Achou que era algum problema de comunicação e talvez pudesse ajudar o estrangeiro. 

__ Olha eu sei que a nota de real que eu tenho vale muito mais do que dois tickets, então se você me vender, pode ficar com o restante para você, mas eu preciso muito seguir viagem. - disse entregando uma nota de 100,00 reais brasileiros.

__ Senhor eu já disse que...

__ Por favor, eu pago os tickets deste senhor e para mim um, apenas de ida. - disse Lana ao atendente, sorrindo para o homem latino.

__ Obrigado, muito obrigado! - disse o homem.

Eles afastaram-se do guichê de atendimento e Lana lhe entregou os tickets. 

__ Tome, seus tickets. - disse ela sorrindo educadamente para ele.

__ Não sei como posso lhe agradecer. Fui pego de surpresa. Acho que perdi minha carteira no saguão do hotel ontem a noite. Perdi alguns doláres e documentos. Mas felizmente meu passaporte estava com dinheiro do Brasil. E estou atrasado para um compromisso na Universidade de Boston. Você salvou meu dia. Olhe, eu posso te entregar esta nota. São 100 reais e valem uns 50 dólares americanos.

__ Não é preciso. Vi que estava aflito e não me importei em ajudar você.
Ele percebeu que o sotaque dela era britânico e não americano. Além do sotaque, ele parou para finalmente observa-la, já desfeito da aflição em que se encontrava. Ela era baixa, magra, pelo menos atrás das roupas, tinha os cabelos bem escuros, olhos verdes e pele bem branca, típica de americanos no inverno. Bem diferente da dele, brasileiro, carioca, que havia passado o feriado de Natal e Reveillon nas praias do Nordeste brasileiro e agora estava padecendo com o inverno rigoroseo americano.

__ Nossa, você... você é britânica. - ele ficou calado e ela, com a sobriedade inglesa, também, sem abrir-se muito. - Me desculpe. Meu nome é Ricardo. Ricardo Rodrigues. Muito prazer.
Ela sorriu e apenas acenou a cabeça. Já o havia ajudado, não via necessidade de falar mais nada ou de dizer nada sobre sua vida. Sabia que haviam pessoas maliciosas que cometiam crimes horrendos abusando da confiança de desconhecidos. E como boa admiradora dos programas de investigação criminal, ela continuou com passo apertado em direção a roleta.

__ Com licença, preciso ir, estou atrasada. 

__ Ah! Sim, me perdoe! - ele calou-se mas continuou caminhando ao lado dela. Não podia deixar de perceber o quanto era uma mulher de beleza especial. Além do agradável aroma que vinha de sua pele. Não era possível visualizar o seu corpo, com tantos casacos e chapéu. Bem diferente das mulheres que conhecia no Rio de Janeiro que em pleno verão vestiam-se bem mais à vontade, mas pelo rosto percebia que era uma mulher magra.

Ele manteve certa distância e ficou aguardando a composição do metrô chegar. As portas abriram-se e ela a viu sentar-se e percebeu que ao lado dela estava vago. E sentou-se também.
Desconcertada com aquela insistente companhia não solicitada, Lana ficou um pouco aborrecida, e calada, cautelosa com algum movimento inesperado. 

Mas Ricardo não falou mais durante boa parte do trajeto. Olhava o relógio impaciente, e com o jeito um pouco estressado e cansado, encostou sua cabeça na parede do trem, fechando os olhos e respirando profundamente tentando manter a tranquilidade, coisa que visivelmente o corpo demonstrava o contrário.

Lana percebeu que ele parecia inquieto, e que esforçarva-se para acalmar-se. E pela visão lateral viu que ele estava de olhos fechados. Foi então que ela virou o rosto na direção dele e o observou melhor. Como ele era lindo. E aquela pele bronzeada do rosto combinava com os olhos castanhos esverdeados e o cabelo liso e claro. Tinha feições bem masculinas e marcantes. E era forte, atlético, mas não muito alto, pelo menos para os padrões americanos. Mesmo assim era mais alto que ela talvez uns 10 cm. Ela observava sua boca bem carnuda e marcante quando ele abriu os olhos e a viu virada em sua direção observando-o.

Ele sorriu para ela e ela virou-se, com alguma vergonha por ter sido pega em flagrante.

__ Você foi muito generosa em me ajudar. Fiquei realmente muito grato.

__ Não foi nada. - disse sorrindo, um pouco ainda sem graça.

__ Pode parecer algo estranho alguém tentar comprar com dinheiro de outro país, mas foi meu último recurso. Eu até tentei trocar os reais por alguns dólares no hotel, mas me disseram que não podiam aceitar pois não faziam câmbio e teria que aguardar a casa de câmbio ao lado abrir. Nem mesmo o taxista que iria me levar disse que aceitaria. Eu não tinha como pagar a corrida sem dólares e sem cartão de crétido ou visa travels. E tenho que estar no meu compromisso às 8 horas. 

__ Percebi que estava aflito e fiquei sensibilizada. - disse ela, desta vez mais simpática e sorridente. Ele percebeu e disse de forma menos aflita

__ Eu mais uma vez agradeço. Sei que os americanos são um povo mais reservado, diferente dos brasileiros que são mais abertos... e...

__ Meu nome é Lana. Sou inglesa. Não sou americana. Nasci em Leeds e fui criada em Oxford. 

__ Logo percebi pelo seu sotaque. E como disse antes, o meu é Ricardo, brasileiro, nascido e criado no Rio de Janeiro. Muito prazer, Lana. Pode me chamar de Ric – ele disse estendendo a mão cumprimentando-a. 

__ “Como vai Ric?” - ela disse em bom português lembrando de quando ele se apresentou minutos antes na estação de metrô.

__ “Você sabe falar português?” - ele perguntou surpreso também em português.

__ “Sim, algumas expressões”. - e continuou em inglês – Sou formada em Línguas. Especializada em literatura inglesa, mestre em literatura inglesa contemporânea e fiz alguns créditos de Língua Portuguesa na faculdade. Aprendi o básico, mas não sou fluente. As línguas latinas são mais difíceis de aprender, principalmente falar. - ela sorriu.

__ Que interessante. Você é professora de Harvard?

__ Não, eu sou professora substituta na Boston University. Um professor está numa conferência na Costa Oeste e estou ministrando algumas aulas no lugar dele. 

__ Está indo para a BU agora? - ela balançou positivamente a cabeça dizendo que sim - Eu também estou. Sou advogado, especializado em direito internacional privado. Estou fazendo uma especialização na BU neste semestre. Estava correndo porque tenho uma apresentação de um "case" ...– ele olhou desesperado para o relógio – Merda! - ela riu mas conteve-se diante da aflição dele. - Perdi minha hora.

__ Você não pode chegar atrasado? Pedir uma segunda oportunidade?

__ Infelizmente não há tolerância para atrasos. Eles são rigorosos. Mas vou tentar fazer. Este foi o primeirodo primeiro módulo que começou há duas semanas. Não queria ter perdido. Já começo em desvantagem acadêmica em relação aos outros. - disse com certa frustração competitiva.

__ Sinto muito. - ela disse sinceramente. Sabia o quanto o mestrado na BU era rigoroso pois ela mesmo havia sentido isto nos anos anteriores.

__ Não se preocupe. Pelo menos aconteceu algo bom neste atraso.

Ela demorou a perguntar, pois como boa britânica, não era do tipo a abrir-se ou demonstrar fácil abertura para conversas.

__ E o que foi?

__ Pelo menos conheci você. - e sorriu de forma diferente, menos aflito, mais confiante e porque não dizer sedutor. Foi então que Lana sentiu o aroma de seu perfume masculino, e percebeu que além do corpo e bronzeado, Ricardo possuía um sorriso cativante. E como bom brasileiro, era bem hospitaleiro, gentil e de fácil conversa. Mesmo assim ela ficou encabulada com a sinceridade dele. Não estava tão acostumada a homens atirados. Ainda mais porque vinha tendo uma vida bem mais reservada do que as outras mulheres de sua idade.

Lana tinha 33 anos e ao que parece, Ricardo tinha uns 36, regulavam a mesma faixa etária e parecia que haviam alcançado, pelo menos academicamente, o mesmo nível de formação. Lana era solteira e ela não havia visto nenhuma aliança na mão de Ricardo. Sim, ele era bonito, simpático, gentil e dono de um sorriso e perfumes cativantes. Mas ela conteve-se. Temia passar de novo por uma experiência amorosa sem sucesso e apenas sorriu educadamente forçando uma típica frieza britânica.

Ele percebeu e imaginou que havia sido ousado demais com alguém que havia acabado de conhecer. Afinal ali não era o baixo Leblon e nem ela era uma típica carioca a acostumada com o clima de azaração comum no Rio de Janeiro. 

Ficaram em silêncio até que chegou a estação que ambos iriam descer.

Caminharam em silêncio pela porta, ele a deixou passar como um bom cavalheiro, e seguiu atrás. E antes de alcançarem a escada rolante ele interrompeu o constrangedor silêncio e disse:

__ Me desculpe, não quis ofende-la ou assustá-la. Sei que nós brasileiros e latinos temos esta fama de conquistador. Mas não tive esta intenção. - ele parecia sincero e no fundo havia se interessado realmente por ela. Já estava adorando o sotaque britânico bem diferente das americanas com quem havia saído até então além do jeito mais contido que Lana demonstrava ter e que era de certa forma desafiador.

__ Tudo bem. Não me ofendeu. É que, bem... - ela sorriu olhando em seus olhos – E não soube o que falar. Fitando-o e esperando que ele a tirasse daquele constrangimento, falando algo, afinal, os brasileiros sempre falavam algo, pensou, sorrindo. Ela havia conhecido alguns durante os anos de graduação e sempre gostou deles. 

__ Lana, gostaria de almoçar com você, ou talvez tomar um café. Posso pegar seu telefone para ligar? - ele sorriu cativante e ela foi pega de surpresa. 

E ele continou

__ Para você ter a certeza que não sou nenhum maníaco ou maluco, eu trabalho próximo a estação onde pegamos o metrô e fico no apart-hotel na mesma rua. Estudo todas às quartas feiras pela manhã na BU, e trabalho no escritório à tarde e às vezes a noite, e durante o dia nos outros dias. E quando não estou no apart-hotel estudando, estou na biblioteca. Sou fácil de achar. Estes são os meus números. - disse ele entregando o cartão. - Você pode me ligar da faculdade, se não quiser me dar seu telefone.
Ela pegou o cartão dele e sorriu. Preferia ter a certeza de que ele realmente existia e não era um conquistador ou mais um psicopata a solta como o personagem do episódio de CSI que ela havia assistido na noite anterior. 

__ OK, Ric, eu ligo para combinarmos.

__ Vou ficar esperando. - ele disse sorrindo e saiu apressado na direção do prédio de Ciências Sociais enquanto ela caminhou, levemente sorridente para o prédio de Humanas.

Aquela havia sido uma manhã definitivamente cheia de neve nas ruas, mas algo bem mais aquecido estava acontecendo dentro dela. E então entrou sorrindo na sala de aula.

__ Bom dia senhores! - e começou seu dia de aulas e estudos dirigidos na BU. Enquanto Ricardo tentava todos os argumentos possíveis, mas sem sucesso em conseguir realizar a apresentação de seu "case". Frustrado, foi para a biblioteca aguardar a próxima aula do dia, mas no caminho, passou pelo prédio de humanas e um pouco afastado viu pelas janelas da sala de aula dos alunos de Letras a sua salvadora do metrô ministrando aula e sorriu para si.

Pelo menos havia conhecido Lana. E todo aborrecimento ficou para trás. Lembrou.


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